Investidor com mais de 66 anos ainda domina metade da Bolsa

Com 106 mil contas, faixa etária tem R$ 79,4 bilhões em ativos na B3; tempo livre e sobra financeira são aliados

Jéssica Alves, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 05h00

Há três anos, prestes a chegar aos 70 anos, Luiz Octavio Correa decidiu parar de empreender, vender sua empresa de guarda móveis e viver dos rendimentos de aplicações financeiras. Para isso, distribuiu o dinheiro da venda em produtos de renda fixa, mas reservou 10% para se aventurar sozinho na Bolsa pela primeira vez. Assim como Correa, o contador aposentado Toshihiko Moriya é um investidor maduro. A diferença é que ele começou por volta dos 50 anos na renda variável e hoje, aos 72, usa dos dividendos de algumas blue chips (empresas mais negociadas) para complementar seu plano de previdência. 

As aplicações em Bolsa de Correa e Moriya fazem parte do gordo montante de R$ 79,4 bilhões nas mãos dos investidores com mais de 66 anos. Apesar de dividirem espaço com os mais jovens, que têm investido mais em ações e aumentado sua participação na B3 nos últimos tempos, esses investidores mais velhos ainda concentram o maior estoque – mesmo sem ter o maior número de contas.

A faixa etária detém quase metade (44,65%) do montante em Bolsa, distribuído por 106 mil contas. A faixa dos 36 aos 45 anos, com 179,9 mil cadastros, tem apenas R$ 20 bilhões ou 11,34% do total. 

Apesar de contrariar a lógica de que os mais velhos deveriam concentrar seu patrimônio em aplicações mais conservadoras, o professor da B3 Educação, Luiz Pardal, explica que é nessa faixa de idade que as pessoas conseguem casar dois fatores fundamentais para aplicar em ações: tempo e dinheiro. Entre os 30 e 40 anos, mesmo ganhando mais, as pessoas destinam montantes maiores para outros projetos de vida, como a aquisição da casa própria ou um curso no exterior, além de terem menos tempo para se dedicar à Bolsa, que exige conhecimento mais técnico sobre investimentos. 

Há um ano eu parei de trabalhar, então hoje acompanho os balanços com mais calma. Gosto de recortá-los dos jornais e ficar estudando as empresas com atenção”, diz Moriya, que já chegou a ter ações mais arriscadas, mas hoje prefere as empresas mais sólidas, que não oscilam muito e pagam dividendos regularmente. 

Maturidade ajuda na hora de investir

Além do tempo e dinheiro como aliados, Correa acrescenta que a experiência como empresário também o ajudou a decidir investir em renda variável. “A vida toda eu tomei decisões em cima de muitos riscos – e Bolsa é isso. Além da experiência, hoje tenho mais paciência e maturidade que não tinha quando mais jovem.”

Walter Cestari, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), explica ainda que a renda acumulada nessa faixa de idade deixa as pessoas mais confortáveis para tomar mais riscos. “Quem tem 66 anos pode arriscar mais porque já tem sobras, é aposentado, não tem de se preocupar com faculdade do filho. Quem tem 35 anos tem mais medo de quebrar e arruinar a vida financeira.”

Outro fator que ele aponta como motivo para concentração do volume na faixa etária dos maiores de 66 anos é a diminuição da renda per capita em razão da queda do PIB. Em anos de PIB per capita maior, os mais jovens conseguem investire diversificar mais seus investimentos. 

Amaril Franklin CTV Ltda